Texto: Pedro Bastos

Fotos: João Meneses Photography

Sempre que comia uns certos ‘McNuggets’ de uma determinada cadeia americana de ‘fastfood’, fazia questão de os acompanhar com um molho agridoce, cuja cor era exactamente igual à deste VW Arteon.

As semelhanças com tal molho não se ficam apenas pela cor, dado que o sabor que este modelo em particular me deixou também pende para um lado mais agridoce.

Em Setembro de 2017, ensaiei a versão base deste muito espaçoso e elegante modelo, equipado com o 2.0TDi de 150cv e com a mesma caixa DSG de 7 velocidades.

Nessa altura, o Arteon impressionou-me mais pela beleza das suas linhas exteriores, robustez de construção e generoso espaço interior, do que propriamente pelas performances dos seus 150cv ou comportamento dinâmico.

Porém, esta versão ‘mostarda’, equipa com um muito vigoroso 2.0TDi bi-turbo, capaz de produzir 240cv às 4.000rpm e uns estratosféricos 500Nm de binário logo a partir das 1.750rpm, valor que mantém constante até às 2.500rpm.

Relembro, é um 2 litros diesel!

Requisito indispensável não apenas pelo nível de potência, mas sobretudo pelo valor de binário produzido, é uma tracção eficaz, que neste caso fica entregue a um esquema 4Motion, permitindo que os mais de 1.800kg desde Arteon cilindrem o clássico 0-100km/h em apenas 6,5s!

Logo desde os primeiros metros ao volante, é fácil perceber que a adição de 90cv e 160Nm tornam este VW numa discreta ‘arma mortífera’ para os mais ‘distraídos’, crentes de que o Arteon que os segue é um ‘heavyweight’ com apenas 150cv… Ó que erro crasso…!

Após uma breve chamada de atenção luminosa a um qualquer ‘transeunte’ da faixa mais à esquerda da Auto Estrada, esmago o acelerador e, com o ‘kickdown’ a obrigar à redução de 2 relações na ultra-rápida DSG, sou impelido para a frente com uma decisão invulgar, enquanto os 500Nm reagrupam os meus órgãos internos contra as costas do banco.

A aceleração incompatível com um veículo equipado com um 4 cilindros diesel ganha um carácter incessante, enquanto a DSG devora relações de caixa.

Sem que me dê conta, a velocidade registada no sofisticado ‘virtual cockpit’ já começa pelo algarismo ‘2’, sem quebras, sem hesitações, sem sinais de perda de força.

É altura para exclamar: ‘Ah bom! Assim sim!’

Será importante referir que esta experiência é vivida mesmo com o modo de condução ‘Normal’ accionado, sendo que no momento em que decidimos optar pelo ‘Sport’ e passar a caixa para modo manual – desfrutando das quási minúsculas patilhas por trás do volante – gozamos da adição de um som de motor ‘desportivo’, artificialmente produzido pelas colunas de som… não sendo o ideal, confesso que trás alguma emoçao extra.

O acerto de suspensão é também um dos pontos fortes deste Superteon, garantindo um reduzido adornar em curva, para além de um bom controlo de todo o conjunto, sem no entanto comprometer os níveis de conforto em pisos mais irregulares.

 

Nesta variante ‘R Line’, contamos ainda com a presença de umas belíssimas jantes de 19 polegadas, ‘encorpando’ o impacto visual deste campeão mostarda.

 

É talvez no capítulo da travagem que mais se sente o peso deste automóvel, sendo que gostaria de sentir um tacto inicial um pouco mais confiante, obrigando a pisar o pedal de travão com alguma conviccção quando pretendemos sentir níveis de desaceleração compatíveis com as altas velocidades que facilmente atingimos.

Aos comandos, gostaria de destacar a excelente posição de condução, baixa e com o volante próximo do nosso peito, com um alcance e pega perfeitos. No entanto, lamento alguma falta de apoio lateral dos bancos, pois num automóvel com este tipo de capacidade dinâmica, é imperativo sentirmo-nos presos no lugar.

Com preços a partir de 63.000€, é na minha óptica, uma proposta muito aliciante em termos de preço/qualidade, estando mais ou menos numa posição isolada em termos de rivais directos.

Senão vejamos; Aquele que mais próximo se situa é talvez o Ford Mondeo 2.0Bi-TDCi de 210cv, com preços a partir de 54.500€. No entanto, em termos de performance, não consegue fazer par com os 240cv do 2.0Bi-Tdi da VW.
Recém chegado ao nosso mercado, e a custar 56.600€, temos o novo KIA Stinger. À semelhança do Mondeo, os 200cv coreanos não são suficientes para ombrear com o andamento este Arteon.

A custar os mesmos 63.000€, temos o Audi A5 Sportback Quattro STronic, mas com apenas 190cv, o problema repete-se.

Finalmente, temos o BMW 430d Grancoupé, o qual, com os 258cv debitados por um 6 cilindros com 3.0 litros, consegue impôr-se em termos de performance enquanto perde claramente no preço, disparando para uns menos atractivos 74.500€.

Assim, e voltando ao início deste texto, este Arteon 2.0Bi-TDi 240cv 4Motion DSG, deixa-me uma sensação agridoce em termos de balanço final, e porquê?

Se por um lado temos um nível de performance muito convincente, por outro temos consumos elevados, sendo difícil resistir ao impulso de dar largas aos 500Nm, acabando por registar frequentemente consumos superiores a 9.0l/100.

Temos 240cv ao nosso dispôr, mas é um facto incontornável que provêem de um pequeno 4 cilindros diesel, cuja sonoridade nada tem de desportivo, sendo necessário recorrer a ‘truques’ eletrónicos para nos encher o ouvido.

Apesar de desfrutarmos de um bom comportamento dinâmico e de uma capacidade de tracção invejável,  contamos com um reduzido apoio lateral dos bancos dianteiros e com uma travagem perfectível, que não deixam, de alguma forma, de condicionar a experiência de condução.

Por último, temos o síndrome ‘Phaeton’….

Apesar de mais do que justificados e sem grande concorrência directa, os 63.000€ pedidos por esta mostarda gourmet, tornam-na numa iguaria exclusiva para bifes Kobe, sendo quase uma heresia aplicá-la num simples hotdog.